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Na gangorra da vida

As crianças estavam na gangorra, num movimento repetido sobe, desce, flexiona um pouco as pernas, firma bem os pés no chão e toma impulso… pausa ... sobe, desce, flexiona um pouco as pernas, firma bem os pés no chão e toma impulso… A cada vez que descia, o chão estava ali, terra firme para o impulso … sobe, desce, flexiona um pouco as pernas, firma bem os pés no chão e toma impulso… Mas com o passar do tempo, a cidade cresceu, tudo em volta virou concreto, não se vê mais grama pelos espaços abertos. O que vemos é calçada, concreto, asfalto … sobe, desce, flexiona um pouco as pernas, firma bem os pés no chão e toma impulso… o cimento firma os caminhos do crescimento, impermeabiliza, higieniza. Os dias passam até que se acostume em não se ver mais a grama, os bichos, as aves. Enquanto o pêndulo da gangorra continua, o céu continua lá … dia, noite, nuvens, vento, chuvas. O ciclo das águas é como o movimento pendular da brincadeira na gangorra … sobe, desce, flexiona um pouco as pernas, firma bem os pés no chão e toma impulso… o ciclo das águas nunca para, mesmo quando a cidade avança sobre pontos de nascentes … o ciclo das águas continua, mesmo com calçadas, represas, canais … o ciclo das águas é como brincadeira de criança, continua e continua enquanto se tem força, enquanto se tem vida … sobe, desce, flexiona um pouco as pernas, firma bem os pés no chão e toma impulso… sobe, desce e a terra já não está mais lá. O chão firme virou rio, água suja, volume incontrolável. Já não se pode mais firmar os pés para o impulso. O movimento pendular foi tomado pelo pavor. A água que antes tinha um caminho,  já não retorna para seu ciclo. A água carrega, desabriga, mata. Seu caminho está coberto, impermeável, concretado pela certeza cega de que tudo é possível se fazer sobre a terra. A água sem intenção de vingança quer seu caminho de volta e não encontra. Ela sobe com fúria pelas ruas, meio-fio e paredes até chegar nos tetos. Os pés já não alcançam mais o chão. Os pés, mãos, cabeças, cães, cavalos, colchões, ventiladores, vacas, galinhas e porcos descem a enxurrada rodopiando entre dejetos, cadeiras, papéis, carros, crianças. A água se avoluma com lágrimas e lamentos. E o terror. Aquela certeza de poder moldar o mundo a seu favor desaparece no mínimo instante sem condições de sobrevivência. O tanto de água por cima de tudo não mata a sede de ninguém. A certeza da comida eterna nos armazéns e hipermercados, não alimentam mais uma vida se lavadas, contaminadas, estragadas. A fragilidade da vida humana fica evidente na catástrofe. A forma de vida humana, nos moldes aos quais foram forjadas, se entrega de joelhos à natureza. O declínio da vida humana, fato inevitável, em poucos minutos ressoa seu lamento no ranger das vigas dos prédios. 


O céu amanhece azul e a gangorra está torcida, sem pendular sorrisos. O céu, suspeito e implacável, nunca deixará de trazer as águas. A terra, parte majoritária em água, não deixará de respirar e buscar manter-se viva. Os seres, tacanhos e lamentosos, – quem sabe encontrarão uma maneira de sobreviver mais dias, num aprendizado forçado à ação comunitária – elaborarão teses e narrativas apagando o passado e suas consequências, crucificando a natureza que há foi atacada. Resta descobrir quem dará primeiro seu último suspiro.


A ecologia rasa é antropocêntrica e trata os humanos como superiores ou algo à parte da natureza, os trata como a fonte de todos os valores. A natureza, dentro dessa perspectiva, possui apenas valor instrumental. Na ecologia profunda, por outro lado, todos os seres são considerados interdependentes no ambiente natural. (Arne Naess)


A mais importante característica de um organismo é a sua auto-renovação interna conhecida como saúde. (Aldo Leopold)


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