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Escritoras e criação literária: o romance Niketche: uma história de poligamia, de Paulina Chiziane

Por “literatura de mulheres” entende-se a literatura concebida e redigida por mulheres, o que, portanto, acarreta, um entendimento inédito na construção da narrativa, que traz à tona a subjetividade inovadora pertencente à experiência da mulher-escritora no espaço da sua vida. Isso acarreta um profundo efeito sobre a construção da narrativa literária, quer seja em prosa, quer seja em poesia, pois as personagens ficcionalizadas são construídas a partir da própria experiência vivenciada pelas mulheres, fruto de seu dia–a-dia em relações que elas tecem e, ao mesmo tempo, são tecidas pela sociedade. Daí o fato das escritoras trazerem para seus escritos literários, vivências e situações notadamente femininas no sentido da experiência humana. Niketche: uma história de poligamia, da escritora moçambicana Paulina Chiziane é um livro que muito me marcou, e que devorei saboreando cada palavra e cada momento da intriga. Trata-se de um enredo ímpar no qual cinco personagens femininas têm suas vidas e vivências expostas dentro de uma torturada e sofrida relação poligâmica na qual são tradicionalmente colocadas umas contra as outras. A narrativa tem seu ponto de partida na potente personagem de Rami, a cansada primeira e única mulher formalmente casada há anos com o cinquentão do marido Tony que, ao descobrir que ele tem várias outras mulheres com casa montada e filhos, decide encontrar suas rivais. O encontro entre Rami, Julieta, Luísa, Saly, a maconde, e Mauá Sualé, a caçula macua forma um cocktail explosivo. A partir de então, inicia-se um movimento de enfrentamento e de estupor que traduz o reconhecimento do papel de cada uma e de todas na lógica da manutenção da relação poligâmica. O resultado desse movimento de aproximação/conhecimento entre elas surpreende, pois aos poucos, com a ajuda das demais, cada uma recupera seu poder antes perdido face às tradicionais estruturas familiares. 



Este romance é sensacional por várias razões. A primeira é o colorido da escrita que, com sua poesia, faz jorrar uma força a partir de imagens proverbiais introduzidas no texto literário, que fortalecem a narração, dando cor e movimento às diversas culturas do norte e do sul do país que compõem o território moçambicano, em seus aspectos identitários e diferenças. Neste sentido, a língua portuguesa na qual o romance é construído constitui-se a partir dos aspectos culturais das culturas moçambicanas, dando-lhes vida e poesia. Por outro lado, cada situação vivida pela personagem Rami, quer seja em suas introspecções, quer seja em suas relações com as demais mulheres, capta as inúmeras tensões e desespero ao mostrar como seus corpos e suas mentes são explorados e sujeitados. Na fúria que se desvenda concomitantemente aos encontros entre a esposa Rami e as amantes do marido, o vendaval alcança o próprio esposo, pois o movimento de Rami é subversivo em si, já que, mulher astuta e profunda observadora da lógica oriunda do sistema poligâmico, Rami se levanta e consegue colocar a lógica da tradição a seu favor. Um primor de romance. 


Paulina Chiziane nasceu em 4 de junho de 1955 em Manjacaze na província de Gaza em Moçambique, e recebeu o prêmio Camões em 2021. 


(foto divulgação)

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